X-MEN:
O FILME
Impulsionados pela boa
repercussão de Blade – O Caçador de Vampiros, de 1998, os executivos da Marvel
fizeram acordo em 2000 com a Fox e em 2001 estreou o primeiro filme dos
mutantes que lutam por aqueles que os odeiam e temem. A ideia existia há muito
tempo, mas (ainda bem) somente com a era de efeitos digitais foi possível
realizar um filme de qualidade. Lembro que, na faculdade, eu aprendia a usar a
Internet, e meu amigo Leandro Vargas, fanático por X-Men, acompanhava tudo pela
revista Sci-Fi. As primeiras fotos deixavam todos apreensivos. Teríamos roupas
coloridas e colantes ridículos? E as máscaras? E o roteiro?
Finalmente chegou o dia
da estreia mundial, e o finado Cine Glória em Rio Grande foi abençoado pela
dádiva de participar do circuito nacional. E lá estávamos eu, Leandro e mais
uma amiga, Marilia Hamada Chaves indo juntos assistir o filme que deu oficialmente início à nova febre
de adaptações de HQ’s para o cinema. O slogan do pôster: Confie em poucos. Tema o restante.
Um espetáculo. Eu não esperava um
filme tão sério. Incrível a abordagem realista do diretor Bryan Singer. Pra
quem acha estranho a palavra “realista” neste contexto, é só ler quadrinhos e
ver Vampira voando, por exemplo, e as cores aberrantes e batalhas espaciais, ou
os vilões estereotipados dando gargalhadas. Mas não, o filme é um drama de
ficção científica com uma dose de aventura. E os uniformes dos heróis são
pretos e de couro – efeito pós-Matrix.
Alguns atores estão perfeitos, Patrick
Stewart era a escolha óbvia para o Professor Xavier e não decepcionou. Ian
McKellen, ator que vinha do teatro britânico, dá um ar de experiência a Magneto
que poucos conseguiriam. E os dois realmente roubam a cena em seus diálogos
afinados, minha parte preferida do filme.

"Entrando escondido aqui, Charles? O que será que está procurando?"
Já o ator que interpreta
Wolverine é o australiano Hugh Jackman, cuja carreira, depois de X-Men, decolou
em Hollywood. Ele tem 1,90m de altura, e como o personagem é baixinho, neste
primeiro filme deram um jeito de sua altura não aparecer. O cara não leu nada
sobre o personagem, pois o diretor não queria que ele fosse influenciado e
ficasse caricato, então só disse que era um cara durão. Jackman tomava banho
gelado (inverno no Canadá) pra ficar tenso pra filmar. Valeu a pena. Logan é o
cara! Muitos fãs chiaram, como sempre, inclusive eu achava (ainda acho) que
tinham de dar um jeitinho de pôr uma máscara em alguma cena. Mas tudo bem.

Halle
Berry como Tempestade ficou meia boca com aquele cabelo claramente postiço e dá
uma voadinha chumbrega, mas que na época achei animal. Anna Paquin ficou nota
10 como a atormentada adolescente Vampira, que não pode tocar ninguém. O vilão
Groxo, ridículo nos quadrinhos, ficou com um visual bem legal, assim como
Dentes-de-Sabre. E Rebecca Romijn-Stamos fez sucesso com sua personagem azul e aham-nua, Mística. E o que falar da linda Famke Janssen como Jean Grey?Até Ciclope ficou bem representado por James Marsden, pena que Wolverine
ofuscou o coitado, que sempre foi um líder de destaque nos quadrinhos.
Outro elemento de destaque foi a
dublagem brasileira, que utilizou as mesmas vozes do desenho dos “mutunas” que
passava na globo. Já na dublagem espanhola, Wolverine é chamado de Glutón
(glutão é também um dos nomes do carcaju, um animal selvagem que, em inglês, é
chamado Wolverine), mas tudo bem, num desenho do Homem-Aranha com participação
dos X-Men, Wolverine foi chamado de Lobão, hehe.
Desde a introdução*, que
faz menção ao apelido que os mutantes têm nos quadrinhos (os filhos do átomo) esse é meu filme preferido da trilogia (até
hoje, assisti, sem exagero, umas 25 vezes ou mais), embora encontre hoje alguns
efeitos ruins que foram sanados nas continuações. Exemplos: esqueceram de
apagar as cordas num dos saltos do Groxo durante a briga com Tempestade; e as
garras de Wolverine na primeira vez saem de uma parte da mão, entre os dedos
(aparece uma gosma branca nojenta), e quando ele atravessa o peito de Vampira,
saem da parte de cima, perfeito como nos quadrinhos.
Mas o
roteiro é muito bom, cheio de implicações éticas sobre o racismo e a
discriminação. Vale lembrar que Stan Lee criou os X-Men originais (Ciclope,
Jean, Anjo, Fera e Homem de Gelo) no início da década de 60, período de
discriminação racial onde se destacavam as ideias de figuras como Martin Luther
King (pacifista, representado por Charles Xavier) e Malcom X (radical,
representado por Magneto).
O plano de Magneto era transferir seu
poder para Vampira a fim de acionar uma máquina (já que ele poderia morrer no
processo) que emite uma radiação. Ele queria causar uma mutação artificial nos
líderes das nações que estavam em reunião em Nova Iorque, para que voltassem a
seus lares como mutantes e acabassem com o preconceito contra sua própria raça.
A ideia ficaria mais clara se uma cena não tivesse sido cortada: Tempestade dá
uma aula de história sobre o Império Romano, que por séculos perseguiu e
discriminou os cristãos, mas no ano 325, quando o Imperador Valério Constantino
e a classe dominante se converteu, a religião cristã se tornou a fé dominante
no Império. Mas tudo bem, o diretor não quis subestimar a inteligência da
plateia. Mas eu conheço gente que não entendeu.
Essa da aula e outras
cenas, assim como bastidores e entrevistas (onde Ian McKellen revela ser gay e
por isso aceitou o papel no filme – que fala de preconceito), estão no DVD
especial X-Men 1.5, que comprei num box com o filme X-Men 2.
E
a editora Abril publicou na época revistas especiais: X-Men - O Filme: Prelúdio
Wolverine, Vampira, Magneto e a quadrinização oficial.
Mutação: é a chave para a nossa evolução. Ela nos permitiu
evoluir de um organismo de uma única célula até a espécie dominante do planeta.
Esse processo é lento, e normalmente leva milhares e milhares de anos. Mas a
cada centena de milênios, a evolução dá um salto à frente.